quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Chocolate

Não sei se foi por causa do Natal, da cidade nova, da carência afetiva ou simplesmente por falta do que fazer, mas ela comprou o chocolate. Não foi assim tão fácil: ficaram horas escolhendo, lendo as fórmulas, vendo os tamanhos, formatos, aplicações. E Assim chegou ao escolhido, o mais cheiroso e bonito vidrinho de creme para tratamento capilar da farmácia. Passou o resto do dia esperando a hora em que aplicaria tal líquido nos cabelos.

Já no quarto do hotel resolveu entrar no chuveiro e tomar um bom banho antes de começar aquela árdua semana que a esperava. E foi aí que tudo começou: abriu a ampulheta de chocolate, sentindo aquele delicioso cheiro adocicado virou-a toda de uma só vez em seus longos e rebeldes cabelos. Rumo ao brilho e à seda começou a enxagüar com a certeza de que no dia seguinte seria uma nova mulher. Antes de deitar, porém, começou a sentir algo de estranho em sua cabeça. Sentia-a pesada e escorregadia em demasiado. Não teria talvez comprado um produto muito forte para seu cabelo? Era normal aquele óleo todo? Enfim, fora dormir ainda feliz com o cuidado que estava tendo consigo mesma.

Ao acordar, cedo da manhã, espreguiçou-se e a primeira coisa que vê no espelho em frente a sua cama é seu cabelo, parecendo ainda molhado a derreter-se sobre seu ombros. Que horror! O que aconteceu com meus cabelos! Como vou sair assim? E sua colega de quarto, assustada com a gritaria, acordou e começou a rir no mesmo instante.

O dia que se seguiu foi terrível: todos falavam, perguntavam e riam dos seus oleosos fios de cabelo que engraxavam todo o seu rosto e corpo. Foi quando sua amiga (que estava na loja consigo no dia da compra) peguntou quanto do potinho colocara. O quê? o pote inteiro? Mas deveriam ser apenas 3 gotinhas! Pronto, era o fim. Como iria passar o resto da semana daquele jeito? Cada lugar que ela parava pra comprar alguma coisa as pessoas a olhavam com nojo! Mas há quanto tempo essa guria não lava o cabelo? Perguntavam. Voltou a ser moda usar gel efeito molhado? Ao menos daqui uma semana, quando voltasse pra casa, seu marido a receberia surpreso com seus lindos e sedosos cabelos. Será? Secaria a tempo?

Na dúvida, mandaram-na para o hotel para que lavasse seus cabelos. Ninguém mais aguentava ver tamanha graxa andando por aí. E foi o que fez. Entrou no chuveiro e lavou uma, duas, três quatro, cinco vezes o cabelo, com shampoo, sabonete, shampoo diferente, sabonete novamente até que se deu por satisfeita. Oquei, acho que está bom, pensava a moça. Saiu do banho, esperançosa e ao procurar sua escova de cabelos teve outro susto: a escova estava tão ou mais oleosa que seu ex-cabelo. E agora? Lavou a escova, deixou de molho e nada. Conseguiu um pente emprestado e passou cuidadosamente em seus fios com medo que sentisse aquela primeira sensação de oleosidade que tivera na noite anterior. Mas não. Seu cabelo havia voltado ao normal. Para alegria de toda a equipe de trabalho, seu marido, que talvez nunca soubesse desta terrível estória e de si mesma nunca mais tentaria dar uma de perua pra suprir carencias de final de ano. Final feliz, a não ser para a escova que teve de ser abandonada na lata de lixo de um hotel qualquer, em uma cidade qualquer no interior do estado.

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